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Capítulo I — Põe-se o primeiro verso, começando a tratar das imperfeições dos principiantes.

Um capítulo de A Noite Escura da Alma

San Juan de la Cruz

Capítulo I

Põe-se o Primeiro Verso, Começando a Tratar das Imperfeições dos Principiantes

1. Nesta noite escura começam a entrar as almas quan­do Deus as vai tirando do estado de principiantes — ou seja, o estado dos que meditam, — e as começa a pôr no dos aproveitados ou proficientes — que é já o dos contempla­tivos — a fim de que, passando pela noite, cheguem ao estado dos perfeitos — o da divina união da alma com Deus. Para entender e declarar melhor que noite seja esta pela qual a alma passa, e por que razão Deus nela a põe, será conveniente tocar aqui algumas particularidades dos prin­cipiantes. Trataremos disto com a brevidade possível; mes­mo assim, será proveitoso para esses principiantes, e fará com que, vendo a fraqueza do seu estado, se animem e de­sejem que Deus os ponha nesta noite onde se fortalecem e confirmam nas virtudes e se dispõem para os inestimáveis deleites do Amor de Deus. Embora nos detenhamos um pou­co, não será mais do que o necessário. Depois trataremos logo desta noite escura.

2. Convém saber que a alma, quando determinadamente se converte a servir a Deus, de ordinário é criada e rega­lada pelo Senhor, com o mesmo procedimento que tem a mãe amorosa com a criança pequenina. Ao calor de seus peitos a acalenta; com leite saboroso e manjar delicado a vai nutrindo, e em seus braços a carrega e acaricia. À medida, porém, que a criança vai crescendo, a mãe lhe vai tirando o regalo; e, escondendo o terno amor que lhe tem, põe suco de aloés amargo no doce peito; desce o filhinho dos braços e o faz andar por seus próprios pés, para que, per­dendo os modos de criança, se habitue a coisas maiores e mais substanciais. Qual amorosa mãe, procede a graça de Deus, quando, por novo calor e fervor no serviço do Al­tíssimo, torna, por assim dizer, a gerar a alma. Primeira­mente lhe concede doce e saboroso leite espiritual, sem ne­nhum trabalho da alma, em todas as coisas divinas, e com grande gosto para ela nos exercícios espirituais, dando-lhe Deus então Seu peito de amor terno, como à criancinha terna.

3. A alma acha seus deleites em passar muito tempo a fazer oração, e porventura até noites inteiras gasta neste exercício; seus gostos são as penitências; seus contentamen­tos, os jejuns; suas consolações estão em receber os Sacra­mentos e comungar às coisas divinas. E embora o faça com muito fervor e assiduidade, praticando esses exercícios com sumo cuidado, todavia não deixa de proceder, em todas essas coisas, com muita fraqueza e imperfeição, sob o ponto de vis­ta espiritual. São movidas as almas a estas mesmas coisas e exercícios espirituais pela consolação e gosto que nisso acham. E, não estando ainda habilitadas por exercícios de forte luta nas virtudes, daí lhes vêm, em todas as suas obras espirituais, muitas faltas e imperfeições. Com efeito, cada qual age conforme o hábito de perfeição que possui. Ora, como estes principiantes não puderam ainda adquirir há­bitos fortes, necessariamente hão de obrar fracamente, quais meninos fracos. E para que com mais clareza apareça esta verdade, e se veja quão faltos estão os principiantes em matéria de virtudes, nas coisas que fazem com facilidade, le­vados pelo gosto, iremos notando, pelos sete vícios capitais, algumas das muitas imperfeições em que caem. Conhecer-se-á então claramente como as suas obras são de pequeni­nos. Também se há de ver quantos bens traz consigo a noite escura, de que em breve trataremos, pois limpa e purifica a alma de todas essas imperfeições.


Fonte:

Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.