Capítulo VI — Das imperfeições na gula espiritual.
Um capítulo de A Noite Escura da Alma
San Juan de la Cruz
Capítulo VI
Das Imperfeições na Gula Espiritual
1. Acerca do vício, que é a gula espiritual, há muito que dizer. Com dificuldade se acha um destes principiantes que, mesmo procedendo bem, não caia em alguma das muitas imperfeições, geralmente nascidas, nesta espécie de vício, do sabor encontrado, a princípio, nos exercícios espirituais. Muitas pessoas, enlevadas com este sabor e gosto, procuram mais o deleite do que a pureza e discrição de espírito visada e aceita por Deus em todo o caminho espiritual. Além das imperfeições em pretender estes deleites, a gula desses principiantes lhes faz exceder os limites convenientes, afastando-se do justo meio no qual as virtudes se adquirem e fortalecem. Atraídos pelo gosto experimentado em suas devoções, alguns se matam de penitências; outros se enfraquecem com jejuns, indo além do que a sua debilidade natural pode suportar. Agem sem ordem nem conselho de outrem; furtam o corpo à obediência, à qual se deviam sujeitar; chegam até ao ponto de agir contrariamente ao que lhes foi mandado.
2. Tais almas são imperfeitíssimas, e parecem ter perdido a razão. Colocam a sujeição e obediência, isto é, a penitência racional e discreta, aceita por Deus como o melhor e mais agradável sacrifício, abaixo da penitência física, que, separada da primeira, é apenas sacrifício animal a que, como animais, se movem, pelo apetite e gosto ali oferecidos. E, como todos os extremos são viciosos, com este modo de agir, vão os principiantes crescendo mais nos vícios do que nas virtudes; porque procuram satisfazer a sua própria vontade. A gula espiritual, juntamente com a soberba, vai neles se firmando, uma vez que não vão pelo caminho da obediência. O demônio procura, de sua parte, perdê-los mais ainda, atiçando a gula espiritual, e, para isto, aumenta-lhes os gostos e apetites. E eles, embora não queiram abertamente desobedecer, tratam de modificar, ou acrescentar ao que lhes é mandado, porque toda obediência, nesse ponto, é para eles desagradável. Chegam alguns a tanto extremo, que, só pelo fato de lhes serem dados aqueles exercícios espirituais por meio da obediência, perdem o gosto e devoção de fazê-los; querem ser movidos unicamente pela própria vontade e inclinação; e porventura seria melhor nada fazer, pois perdem assim as penitências todo o valor.
3. Vereis a muitos destes espirituais porfiando com seus diretores para que lhes concedam o que eles querem; obtêm as licenças quase como por força; e, se lhes é negado o pedido, ficam tristes e andam amuados, como crianças. Parece-lhes que não servem a Deus quando não lhes deixam fazer o que queriam. Como andam arrimados ao seu próprio gosto e vontade a que têm por seu Deus, apenas são contrariados pelas pessoas às quais compete mostrar-lhes a vontade divina, ficam aborrecidos, e, perdendo o fervor, se relaxam. Pensam que, estando satisfeitos e contentes, estão servindo e contentando a Deus.
4. Há também outros que, com esta gula, mal reconhecem sua própria baixeza e miséria; afastam-se tanto do amoroso temor e respeito devido à grandeza divina, que não duvidam em porfiar muito com seus confessores para que os deixem comungar muitas vezes. Sucede-lhes coisa ainda pior: atrevem-se a comungar sem a licença e parecer do ministro e dispensador dos mistérios de Cristo, a ele procurando encobrir a verdade. Para esse fim, com o desejo de comungar, fazem as confissões de qualquer jeito, tendo mais cobiça em comer, do que em comer com perfeição e pureza de consciência. Seria muito mais perfeito e santo ter inclinação contrária, rogando aos confessores que não lhes permitissem comungar tão frequentemente; embora, na verdade, o melhor de tudo seja a resignação humilde. Esses atrevimentos são muito reprováveis, e podem temer o castigo aqueles que se deixam levar por tão grande temeridade.
5. Essas pessoas de que falamos aqui, quando comungam, empregam todas as diligências em procurar algum sentimento ou gosto, mais do que em reverenciar e louvar com humildade a seu Deus. De tal maneira buscam consolações que, em não as tendo, julgam nada terem feito nem aproveitado; nisto têm a Deus em muito baixa conta, pois não entendem que esse proveito de gosto sensível é o menor que produz o Santíssimo Sacramento. O maior é o proveito invisível da graça que deixa na alma; e para que ponhamos nele os olhos da fé, muitas vezes tira o Senhor os gostos e sabores sensíveis. Os principiantes, dos quais vamos tratando, querem sentir e gozar de Deus como se Ele fosse compreensível e acessível aos sentidos; procedem assim, não só na comunhão, como em todos os seus exercícios espirituais. E, em tudo isto, procedem com grande imperfeição, e muito contrariamente ao modo de Deus, pois agem com impureza na fé.
6. Do mesmo modo procedem no exercício da oração. Pensam que tudo está em achar gosto e devoção sensível, e procuram obtê-lo, como se diz, à força de braços, cansando e fatigando as potências e a cabeça; e quando não conseguem esses gostos, ficam muito desconsolados, pensando que nada fizeram. Por esta pretensão perdem a verdadeira devoção e espírito que consiste em perseverar na oração com paciência e humildade, desconfiando de si mesmos, e buscando somente agradar a Deus. Quando essas pessoas não acham, alguma vez, consolação sensível, — seja no exercício da oração ou em qualquer outro, — perdem a vontade de fazê-los, ou sentem repugnância em continuá-los, chegando mesmo a abandonar tais exercícios. Enfim, como havíamos dito, são semelhantes às crianças, movendo-se e agindo, não pela parte racional, mas pelo gosto sensível. Gastam todo o tempo em procurar esse gosto e consolo de espírito, e para isto, nunca se fartam de ler livros; ora tomam uma meditação, ora outra, dando caça ao deleite nas coisas de Deus. A estes, com muita justiça, discrição e amor, o Senhor nega as consolações, porque, a não agir assim, cresceriam eles sempre, por esta gula e apetite espiritual, em males sem conta. Convém muito, portanto, que entrem na noite escura, de que vamos falar, para serem purificados de tais ninharias.
7. Os que assim estão inclinados a esses gostos também caem noutra imperfeição muito grande: são muito frouxos e remissos em seguir pelo caminho áspero da Cruz; pois a alma que se deixa levar pelo saboroso e agradável naturalmente há de sentir repugnância da falta de sabor e gosto que encerra a negação própria.
8. Têm estes ainda outras muitas imperfeições provenientes das já mencionadas; vai o Senhor curando-as a seu tempo, com tentações, securas e outros trabalhos, que fazem parte da noite escura. Não quero tratar aqui dessas faltas, para não me alargar mais. Direi somente que a sobriedade e temperança espiritual produzem na alma outra disposição bem diversa, inclinando-a para a mortificação, temor e sujeição em todas as coisas, e mostrando-lhe que a perfeição e valor das coisas não consistem na sua multiplicidade nem no gosto sensível que proporcionam, mas sim em saber negar-se a si mesma em tudo. E isso, hão de procurar os espirituais, quanto lhes for possível de sua parte, até que Deus os queira purificar de fato, introduzindo-os na noite escura. Para passar a explicar esta noite, apresso-me em terminar a matéria das imperfeições.
Fonte:
Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.



