Capítulo II — Outras imperfeições próprias aos adiantados
Um capítulo de A Noite Escura da Alma
San Juan de la Cruz
Capítulo II
Outras Imperfeições Próprias aos Adiantados
1. Duas espécies de imperfeições têm os aproveitados: umas habituais, outras atuais. As habituais são os apegos e costumes imperfeitos que ainda permanecem, como raízes, no espírito, onde não pôde atingir a purificação sensível. Entre o que foi feito e o que há a fazer existe tanta diferença como entre os ramos e as raízes, ou como em tirar uma mancha fresca e outra muito entranhada e velha. Conforme já dissemos, a purificação do sentido é apenas a porta e o princípio de contemplação que conduz à purificação do espírito; serve mais, como também referimos, para acomodar o sentido ao espírito, do que propriamente para unir o espírito a Deus: As manchas do homem velho permanecem ainda no espírito, embora a alma não as perceba, nem as veja. Eis por que, se elas não desaparecem com o sabão e a forte lixívia da purificação desta noite, não poderá o espírito chegar à pureza da união divina.
2. Têm ainda estes espirituais a hebetado mentis, e a dureza natural que todo homem contrai pelo pecado, bem como a distração e derramamento do espírito. Convém, portanto, que seja ilustrado, esclarecido e recolhido por meio do sofrimento e angústia daquela noite. Estas imperfeições habituais, todos aqueles que não passaram além deste estado de progresso costumam tê-las; e não condizem, conforme dissemos, com o estado perfeito de união por amor.
3. Nas imperfeições atuais, não caem todos do mesmo modo. Alguns, em razão de trazerem os bens espirituais tão manejáveis ao sentido, caem em maiores inconvenientes e perigos do que declaramos dos principiantes. Acham, às mãos cheias, grande quantidade de comunicações e apreensões espirituais, juntamente para o sentido e o espírito, e com muita frequência têm visões imaginárias e espirituais. Tudo isto, de fato, acontece, com outros sentimentos saborosos, a muitas almas neste estado, no qual o demônio e a própria fantasia, muito de ordinário, causam representações enganosas. Com tanto gosto costuma o inimigo imprimir e sugerir à alma essas apreensões e sentimentos, que com grande facilidade a encanta e engana, se ela não tiver cuidado de renunciar e defender-se fortemente na fé, contra todas estas visões e sentimentos. Aproveita-se aqui o demônio para fazer muitas almas darem crédito a ilusórias visões e falsas profecias. Procura fazê-los presumir de que Deus e os Santos lhes falam, quando muitas vezes é a própria fantasia; costuma enchê-los também de presunção e soberba, e atraídos pela vaidade e arrogância, mostram-se em atos exteriores que parecem santidade, como são arroubamentos e outras manifestações externas. Tornam-se atrevidos para com Deus, perdendo o santo temor que é chave e custódia de todas as virtudes. Estas falsidades e enganos chegam a multiplicar-se tanto em algumas destas almas, e elas tanto se endurecem com o tempo em tais coisas, que se torna muito duvidosa a sua volta ao caminho puro da virtude e verdadeiro espírito. Nestas misérias vêm a dar, por terem começado a se entregar com demasiada segurança às apreensões e sentimentos espirituais, quando principiavam a aproveitar no caminho.
4. Haveria tanto a dizer sobre as imperfeições destes aproveitados, e mostrar como são mais incuráveis por as terem eles como mais espirituais do que as primeiras, que deixo de falar. Digo somente o seguinte, para fundamentar a necessidade desta noite espiritual, — isto é, a purificação, — para a alma que há de passar adiante: nenhum, só, destes aproveitados, por melhor que haja procedido, deixa de ter muitos daqueles apegos naturais e hábitos imperfeitos, necessitados de prévia purificação para poder passar a alma à união divina.
5. Além disto, como a parte inferior ainda participa nestas comunicações espirituais, não podem elas ser tão intensas, puras e fortes, segundo exige a união com Deus. Portanto, para chegar a esta união de amor, convém à alma entrar na segunda noite, do espírito. Então, despojado d sentido e o espírito perfeitamente de todas estas apreensões e sabores, caminha em obscura e pura fé, meio próprio e adequado para unir-se com Deus, segundo Ele diz por Oséias, com estas palavras: “Eu te desposarei na fé” (Os 2, 20), [1] a saber, unir-te-ei comigo pela fé.
[1] O texto diz: “Eu te desposarei com uma inviolável fidelidade”.
Fonte:
Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.



