• Feed RSS
  • Google+
Faça o seu login
(leitores convidados).

Hadnu.org

Capítulo III — Anotação para o que se segue.

Um capítulo de A Noite Escura da Alma

San Juan de la Cruz

Capítulo III

Anotação para o que se Segue

1. Estes espirituais vão, pois, por certo tempo, nutrindo os sentidos com suaves comunicações. Atraída e deliciada com o gosto espiritual que dimana da parte superior, a parte sensitiva une-se e põe-se em harmonia com o espírito. Alimentam-se, sentido e espírito juntos, cada um a seu modo, do mesmo manjar espiritual e no mesmo prato que nutre a ambos como a uma só pessoa. E assim, de certo modo irmanados e conformes em unidade, estão dispostos agora para, juntos, sofrer a áspera e dura purificação do espírito, que os espera. É aí que se hão de purificar perfeitamente estas duas partes da alma, — espiritual e sensitiva, — pois nunca se purifica bem uma sem a outra. De fato, a verdadeira purificação do sentido só se realiza quando começa deliberadamente a do espírito. Por isto, a noite do sentido que descrevemos, mais propriamente se pode e deve chamar certa reforma e enfreamento do apetite, do que purificação. A razão é que todas as imperfeições e desordens da parte sensitiva derivam sua força e raiz do espírito, onde se formam todos os hábitos, bons e maus; e assim, enquanto este não é purificado, as revoltas e desmandos do sentido não o podem ser suficientemente.

2. Nesta noite de que vamos falar, purificam-se conjuntamente as duas partes. Para conseguir este fim, era necessário passar o sentido pela reforma da primeira noite, e chegar à bonança que dela resultou; e, unindo agora com o espírito, poderão os dois, de certo modo, sofrer a purificação com mais fortaleza nesta segunda noite. Com efeito, é mister tão grande ânimo para suportar tão dura e forte purificação que, se não houvesse a anterior reforma da fraqueza inerente à parte inferior, e se depois não tivesse cobrado força em Deus pela saborosa e doce comunicação com Ele, a natureza não sentiria coragem nem disposição para sofrer tal prova.

3. Estes adiantados na via espiritual agem de modo muito baixo e natural em seus exercícios e relações com Deus, pelo motivo de não terem ainda purificado e acrisolado o ouro do espírito. E assim, “compreendem as coisas de Deus como pequeninos; falam de Deus como pequeninos; saboreiam e sentem a Deus como pequeninos”, segundo diz S. Paulo (1 Cor 13, 11). Isto sucede por não haverem chegado à perfeição, que é a união da alma com Deus. Em chegando a ela, tornam-se grandes, operando coisas magníficas em seu espírito, sendo então suas obras e potências mais divinas do que humanas, conforme será dito depois. Deus, em realidade, querendo despojá-los agora do velho homem e vesti-los do novo, criado segundo Deus na novidade do sentido, de que fala o Apóstolo (Ef 4, 23-24), despoja-lhes, de fato, as potências, afeições e sentidos, tanto espirituais como sensíveis, exteriores e interiores. Deixa-os com o entendimento na escuridão, a vontade na secura, a memória no vazio; as afeições da alma em suma aflição, amargura e angústia. Priva a mesma alma do sentido e gosto que antes experimentava nos bens espirituais, a fim de que esta privação seja um dos princípios requeridos no espírito para a introdução nele, da forma espiritual, que é a união de amor. Tudo isto opera o Senhor na alma por meio de uma pura e tenebrosa contemplação, conforme ela o dá a entender na primeira canção. E, embora esta canção esteja explicada a respeito da primeira noite do sentido, a alma a entende principalmente em relação a esta segunda noite do espírito, que é a parte mais importante da purificação. E assim, a este propósito queremos colocá-la e declará-la uma vez mais.


Fonte:

Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.