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Capítulo IV — Põe-se a primeira canção e sua declaração.

Um capítulo de A Noite Escura da Alma

San Juan de la Cruz

 

Capítulo IV

Põe-se a Primeira Canção e Sua Declaração

Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada
Oh! ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

Declaração

1. Interpretemos agora esta canção, quanto à purificação, contemplação, desnudez ou pobreza de espírito — que tudo isto aqui é quase a mesma coisa. Podemos então declarar como segue, em que a alma diz: em pobreza, desamparo e desarrimo de todas as minhas apreensões, isto é, em obscuridade do meu entendimento, angústia de minha vontade, e em aflição e agonia quanto à minha memória, permanecendo na obscuridade da pura fé, — que é na verdade noite escura para as mesmas potências naturais — só com a vontade tocada de dor e aflições, cheia de ânsias amorosas por Deus, saí de mim mesma. Saí, quero dizer, do meu baixo modo de entender, de minha fraca maneira de amar, e de meu pobre e escasso modo de gozar de Deus, sem que a sensualidade nem o demônio me tenham podido estorvar.

2. Esta saída foi grande sorte e feliz ventura para mim, porque, em acabando de aniquilar e sossegar as potências, paixões e apetites, nos quais sentia e gozava tão baixamente de Deus, passei do trato e operação humana que me eram próprios, à operação e trato divino. A saber: meu entendimento saiu de si, mudando-se, de humano e natural, em divino. Unindo-se a Deus nesta purificação, já não compreende pelo seu vigor e luz natural, mas pela divina Sabedoria à qual se uniu. Minha vontade saiu também de si, tornando-se divina; unida agora com o divino amor, já não ama baixamente com sua força natural, e sim com a força e pureza do Espírito Santo, não mais agindo de modo humano nas coisas de Deus. E a memória igualmente há trocado suas lembranças em apreensões eternas de glória. Enfim, todas as forças e afeições da alma, passando por esta noite e purificação do velho homem, se renovam em vigor e sabores divinos.

Segue-se o verso:

Em uma noite escura.


Fonte:

Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.