• Feed RSS
  • Google+
Faça o seu login
(leitores convidados).

Hadnu.org

Capítulo V — Põe-se o primeiro verso, começando a explicar como esta contemplação obscura é para a alma não somente noite, mas também pena e tormento.

Um capítulo de A Noite Escura da Alma

San Juan de la Cruz

Capítulo V

Põe-se o Primeiro Verso, Começando a Explicar Como Esta Contemplação Obscura é Para a Alma Não Somente Noite, Mas Também Pena e Tormento

1. Esta noite escura é um influxo de Deus na alma, que a purifica de suas ignorâncias e imperfeições habituais, tan­to naturais como espirituais. Chamam-na os contemplativos contemplação infusa, ou teologia mística. Nela vai Deus em segredo ensinando a alma e instruindo-a na perfeição do amor, sem que a mesma alma nada faça, nem entenda como é esta contemplação infusa. Por ser ela amorosa sabedoria divina, Deus produz notáveis efeitos na alma, e a dispõe, purificando e iluminando, para a união de amor com Ele. As­sim, a mesma amorosa Sabedoria que purifica os espíritos bem-aventurados, ilustrando-os, é que nesta noite purifica e ilumina a alma.

2. Surge, porém, a dúvida: por que à luz divina (que, conforme dissemos, ilumina e purifica a alma de suas ig­norâncias) chama a alma agora “noite escura”? A isto se responde: por dois motivos esta divina Sabedoria é não somente noite e trevas para a alma, mas ainda pena e tor­mento. Primeiro, por causa da elevação da Sabedoria de Deus, que excede a capacidade da alma, e, portanto, lhe fica sendo treva; segundo, devido à baixeza e impureza da alma, e por isto lhe é penosa e aflitiva, e também obscura.

3. Para provar a primeira afirmação, convém supor certa doutrina do Filósofo: quanto mais as coisas divinas são em si claras e manifestas, tanto mais são para a alma naturalmente obscuras e escondidas. Assim como a luz. quanto mais clara, tanto mais cega e ofusca a pupila da coruja; e quanto mais se quer fixar os olhos diretamente no sol, mais trevas ele produz na potência visual, parali­sando-a, porque lhe excede a fraqueza. Do mesmo modo quando esta divina luz de contemplação investe a alma que ainda não está totalmente iluminada, enche-a de trevas es­pirituais; porque, não somente a excede, como também para­lisa e obscurece a sua ação natural. Por este motivo, São Dionísio e outros místicos teólogos chamam a esta contem­plação infusa “raio de treva”. Isto se entende quanto à al­ma não iluminada e purificada, pois a grande luz sobrena­tural desta contemplação vence a força natural da inteligên­cia, privando-a do seu exercício. Por sua vez disse David: “Nuvens e escuridão estão em redor d’Ele” (SI 96, 2); não porque isto seja realmente, mas por ser assim para os nossos fracos entendimentos, os quais, em tão imensa luz, cegam-se e se ofuscam, não podendo elevar-se tanto. Esta verdade o mesmo David o declarou em seguida, dizendo: “Pelo gran­de resplendor de sua presença, as nuvens se interpuseram” (SI 17, 13), [1] isto é, entre Deus e nosso entendimento. Daí procede que este resplandecente raio de secreta Sabedoria, derivando de Deus à alma ainda não transformada, produz escuras trevas no entendimento.

4. Está claro que esta obscura contemplação também é penosa para a alma, nos princípios. Com efeito, tendo esta divina contemplação infusa tantas excelências, extremamen­te boas, e a alma, ao invés, ainda estando cheia de tantas misérias em extremo más, — por não estar purificada, — não podem caber dois contrários num só sujeito que é alma. Logo, necessariamente esta há de penar e padecer, sendo o campo onde se combatem os dois contrários que lutam dentro dela. Tal combate resulta da purificação das imperfeições, que se opera por meio desta contemplação. É o que vamos provar por indução, da seguinte maneira.

5 Primeiramente, como é muito clara e pura a luz e sabedoria desta contemplação, e a alma, por ela investida, está tenebrosa e impura, sente muito sofrimento ao receber essa luz, do mesmo modo que aos olhos indispostos, impu­ros e doentes, causa dor o dardejar de uma luz resplande­cente. Esta pena que padece a alma, por estar ainda impura, é imensa, quando deveras tal divina luz a investe. Quando, de fato, a pura luz investe a alma, a fim de lhe expulsar a impureza, sente-se tão impura e miserável, que Deus lhe parece estar contra ela, e ela contra Deus. Donde, tanto é o sentimento e penar da alma, imaginando-se então rejeita­da por Deus, que Job considerava como um dos maiores tra­balhos estar posto por Deus neste exercício, e assim o ex­primia: “Porque me hás posto contrário a ti, e sou grave e pesado a mim mesmo?” (Job 7, 20). Vendo aqui a alma claramente, por meio desta pura luz, — embora nas trevas, — sua própria impureza, conhece com evidência que não é digna de Deus nem de criatura alguma. Aumenta-se-lhe a aflição ao pensar que jamais o será, e que já se acabaram os seus bens. Esta impressão provém da imersão profunda de sua mente no conhecimento e sentimento de seus males e misérias. Todos eles lhe são postos diante dos olhos, por esta divina e obscura luz, dando-lhe a consciência clara de que em si mesma jamais poderá ter outra coisa. Podemos entender neste sentido aquela palavra de David que diz: “Pela iniquidade corrigiste ao homem, e fizeste com que a sua alma se desfizesse como a aranha” (SI 38, 12).

6. Em segundo lugar, sofre a alma por causa de sua fraqueza natural, moral e espiritual; quando esta divina contemplação a investe com alguma força, a fim de fortalecê-la e domá-la, de tal maneira a faz sofrer em sua fraqueza, que por um pouco desfalecerá, — o que particularmente se verifica algumas vezes, quando investe com força um pouco maior. Então o sentido e o espírito, como se estivessem de­baixo de imensa e obscura carga, penam e agonizam tanto, que a alma tomaria por alívio e favor a morte. Ao experi­mentar Job esta pena, dizia: “Não quero que contenda co­migo com muita fortaleza, nem que me oprima com o peso de sua grandeza” (Job 23, 6).

7. Sob a força desta operação e peso, sente-se a alma tão longe de ser favorecida, a ponto de lhe parecer que aquilo mesmo que antes a ajudava, se acabou com o demais, e não há quem se compadeça dela. A este propósito disse também Job: “Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, meus amigos, porque a mão do Senhor me tocou” (Job 19, 21). Causa grande espanto e lástima ser tanta a fraqueza e impureza da alma, que, embora a mão de Deus seja por si mesma tão branda e suave, a própria alma a sinta agora tão pesada e contrária; ora, esta mão divina não pesa nem faz carga, mas apenas toca, e isto o faz miseri­cordiosamente, com o fim de conceder graças à alma, e não de castigá-la.


[1] Citação aproximada. O texto diz: “As nuvens se desfizeram”.


Fonte:

Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.