• Feed RSS
  • Google+
Faça o seu login
(leitores convidados).

Hadnu.org

Capítulo X — Por uma comparação, explica-se em seu fundamento esta purificação da alma.

Um capítulo de A Noite Escura da Alma

San Juan de la Cruz

Capítulo X

Por Uma Comparação, Explica-se em Seu Fundamento Esta Purificação da Alma

1. Para maior clareza do que foi dito e se há de dizer ainda, é preciso observar aqui como esta purificadora e amorosa notícia ou luz divina, quando vai preparando e dispondo a alma para a união perfeita de amor, age à maneira do fogo material sobre a madeira para transformá-la em si mesmo. Vemos que este fogo material, ateando-se na madeira, começa por secá-la; tira-lhe a umidade, e lhe faz expelir toda a seiva. Logo continua a sua ação, enegrecendo a madeira, tornando-a escura e feia, e até com mau odor; assim a vai secando pouco a pouco, e pondo à vista, a fim de consumi-los, todos os elementos grosseiros e escondidos que a madeira encerra, contrários ao mesmo fogo. Finalmente, põe-se a inflamá-la e aquecê-la por fora, até penetrá-la toda e transformá-la em fogo, tão formosa como ele próprio. Em chegando a este fim, já não existe na madeira nenhuma propriedade nem atividade própria, salvo o peso e a quantidade, maiores que os do fogo; pois adquiriu as propriedades e ações do próprio fogo. Assim, agora está seca, e seca; está quente, e aquece; está luminosa, e ilumina; está muito mais leve do que era antes; e tudo isto é obra do fogo na madeira, produzindo nela estas propriedades e efeitos.

2. Do mesmo modo havemos de raciocinar acerca deste divino fogo de amor de contemplação: antes de unir e transformar a alma nele, primeiro a purifica de todas as propriedades contrárias. Faz sair fora todas as suas deformidades e, por isto, a põe negra e obscura, dando-lhe aparência muito pior do que anteriormente, mais feia e abominável do que costumava ser. Esta divina purificação anda removendo todos os humores maus e viciosos; de tão profundamente arraigados e assentados, a alma não os podia ver, nem entendia que fossem tamanhos; mas agora, que é necessário expulsá-los e aniquilá-los, são postos bem à sua vista. A alma os vê muito claramente, iluminada por esta obscura luz de divina contemplação; e, embora não seja por isto pior do que antes, nem em si mesma, nem para Deus, contudo, ao ver dentro de si o que anteriormente não via, parece-lhe evidente que assim o é. E ainda mais, julga-se não somente indigna do olhar de Deus, mas merecedora de que Ele a aborreça, e na verdade pensa estar em seu desagrado. Desta comparação podemos agora deduzir muitas coisas sobre o que vamos dizendo e tencionamos ainda dizer.

3. Em primeiro lugar, podemos entender como esta luz e sabedoria amorosa de Deus, que deve unir-se à alma e transformá-la, é a mesma que no início a purifica e dispõe. Assim o fogo que transforma em si a madeira, incorporando-se a ela, é o mesmo que no princípio a esteve dispondo para este efeito.

1. Em segundo lugar, veremos claramente como estas penas que a alma sente não lhe vêm da divina Sabedoria, pois, como disse o Sábio, “todos os bens vieram à alma juntamente com ela” (Sab 7, 11). Provêm, ao contrário, da fraqueza e imperfeição da própria alma que, sem esta purificação, é incapaz de receber Sua divina luz, suavidade e deleite. É conforme acontece à madeira, que não pode ser transformada no fogo logo ao ser posta nele, mas tem de ser aos poucos preparada: assim, a alma padece tanto. Dá bom testemunho desta verdade o Eclesiástico, narrando o que sofreu para chegar à união e fruição da Sabedoria: “Lutou a minha alma por ela; minhas entranhas se comoveram, buscando-a; por isto possuirei grande bem” (Ecli 51, 25 e 29).

2. Em terceiro lugar, podemos, de passagem, fazer uma ideia do sofrimento das almas do purgatório. O fogo, embora lhes fosse aplicado, não teria sobre elas ação, se não tivessem imperfeições para expiar; porque são estas imperfeições a matéria em que se ateia o fogo, e uma vez consumida, não há mais o que queimar. Aqui nesta noite, de modo semelhante, consumidas as imperfeições, cessa o padecer da alma, e fica-lhe o gozo.

3. Em quarto lugar, compreenderemos como a alma, na proporção em que vai sendo purificada e preparada por meio deste fogo de amor, vai também se inflamando mais no amor. Assim observamos na madeira posta no fogo: do mesmo modo e andamento em que se vai dispondo, vai igualmente se aquecendo. Quando a chama cessa de atacar a madeira, é que se pode ver o grau em que a inflamou: De modo análogo, a inflamação de amor não é sempre sentida pela alma; só algumas vezes a percebe, quando a contemplação deixa de investir com muita força. Então a alma pode ver, e mesmo saborear, a obra que nela se realiza, porque lhe é mostrada. Parece-lhe, nessas ocasiões, que a mão que a purifica interrompe o trabalho e tira o ferro da fornalha para lhe proporcionar, de certo modo, a vista desse labor que se vai realizando. Tem agora oportunidade de ver em si mesma o proveito que não percebia quando estava sendo purificada.

4. Em quinto lugar, deduziremos também, desta comparação do fogo, como é certo que a alma, depois destes intervalos de alívios, volta a sofrer mais intensa e delicadamente do que antes. Porque, havendo o fogo do amor manifestado à alma o seu trabalho de purificação, em que consumiu as imperfeições mais exteriores, recomeça a feri-la, a fim de consumir e purificar mais adentro. Nesta purificação mais interior, o sofrimento da alma é tanto mais íntimo, sutil e espiritual, quanto mais finamente vai purificando essas imperfeições tão íntimas, delicadas e espirituais, e tão arraigadas na substância de seu ser. Assim observamos na madeira quando o fogo vai penetrando mais adentro: age então com maior força e violência, dispondo a parte mais interior da madeira para apropriar-se dela.

5. Em sexto lugar, descobrir-se-á agora donde provém a impressão de estarem acabados todos os bens da alma, e de estar cheia de males; pois, neste tempo, outra coisa não lhe vem senão amarguras em tudo. É o mesmo que sucede à madeira quando está ardendo: o ar, e tudo o mais que lhe chega, só serve para atiçar o fogo que a consome. A alma, porém, há de gozar depois de outros alívios, como gozou dos primeiros; e estes de agora serão muito mais íntimos, porque a purificação já penetrou mais adentro.

6. Em sétimo lugar, tiraremos esta conclusão: é certo que a alma, nestes intervalos, goza com muita liberdade; tal o seu consolo, algumas vezes, que, lhe parece, não voltarão mais os sofrimentos. Contudo, não deixa de pressentir quando hão de volver, notando em si mesma uma raiz má que ainda persiste, e que às vezes se mostra evidente e não a deixa gozar de alegria completa; tem a impressão de que está ameaçando, para tornar a investir; e, então, depressa volta a purificação. Enfim, o que ainda resta a ser purificado e iluminado em seu mais recôndito íntimo não pode permanecer escondido à vista do já purificado. Assim sucede à madeira, em que há sensível diferença entre a parte que está ardendo no fogo, e a que vai ser ainda inflamada. Quando, portanto, a purificação volta a investir mais intimamente, não é para admirar que a alma venha a imaginar outra vez que todos os seus bens acabaram e jamais hão de ser readquiridos. Mergulhada como está em sofrimentos mais íntimos, todos os bens mais exteriores desaparecem à sua vista.

7. Tendo, pois, diante dos olhos esta comparação, com a explicação que já foi dada sobre o primeiro verso da primeira canção, referente a esta noite escura e suas terríveis propriedades, será bom sair destas coisas tristes da alma, e começar agora a tratar do fruto de suas lágrimas, bem como das suas ditosas características, que começam a ser cantadas a partir deste segundo verso:

De amor em vivas ânsias inflamada.


Fonte:

Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.