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Capítulo XIX — Começa a Explicação dos dez degraus da escada mística do Amor Divino, segundo S. Bernardo e S. Tomás: São expostos os cinco primeiros.

Um capítulo de A Noite Escura da Alma

San Juan de la Cruz

Capítulo XIX

Começa a Explicação dos Dez Degraus da Escada Mística do Amor Divino, Segundo São Bernardo e São Tomás: São Expostos os Cinco Primeiros

1. Dizemos, pois, que os degraus desta escada mística de amor, por onde a alma sobe, passando de um a outro, até chegar a Deus, são dez. O primeiro degrau de amor faz a alma enfermar salutarmente. Dele fala a Esposa, quando diz: “Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, que se encontrardes o meu Amado, lhe digais que estou enferma de amor”. (Cânt 5, 8). Esta enfermidade, porém, não é para morrer, senão para glorificar a Deus; porque, nela, a alma por amor de Deus desfalece para o pecado e para todas as coisas que não são Deus, como testifica David dizendo: “Desfaleceu o meu espírito” (Sl 142, 7), isto é, acerca de todas as coisas, para esperar de Vós a salvação. Assim como o enfermo perde o apetite e gosto de todos os manjares, e se lhe desvanece a boa cor de outrora, assim também, neste degrau de amor, a alma perde o gosto e apetite de todas as coisas, e troca, como apaixonada, as cores e acidentes da vida anterior. Não pode, entretanto, a mesma alma cair nesta doença, se do alto não lhe é enviado um fogo ardente, segundo se dá a entender por este verso de David que diz: “Enviarás, ó Deus, uma chuva abundante sobre a tua herança, a qual tem estado debilitada, mas tu a aperfeiçoaste” (Sl 67, 10). Esta enfermidade e desfalecimento a todas as coisas é o princípio e primeiro degrau da escada, em que a alma ascende até Deus; já o explicamos acima, quando falamos do aniquilamento em que se vê a alma ao começar a subir esta escada de contemplação em que é purificada; porque, então, em nada pode achar gosto, apoio ou consolo, nem coisa em que possa afirmar-se. Assim, deste primeiro degrau vai logo começando a subir ao segundo.

2. O segundo degrau faz com que a alma busque sem cessar a Deus. Daí a palavra da Esposa, quando diz que “buscando-O de noite em seu leito, não O achou” (Cânt 3, 1). Estava ela então ainda no primeiro degrau de amor, desfalecida. E não O encontrando, continua a exclamar: “Levantar-me-ei e buscarei Aquele a quem ama a minha alma” (Cânt 3, 2). Isto, como já dissemos, é o que faz aqui a alma sem cessar, conforme aconselha David nestes termos: “Bus­cai sempre a face de Deus, e, buscando-O em todas as coisas, em nenhuma reparai, até achá-Lo” (S1 104, 4). [1] Assim fez também a Esposa: perguntando pelo Amado aos guardas, logo passou adiante e os deixou. Maria Madalena, quando estava no sepulcro, nem mesmo nos Anjos reparou. Aqui neste degrau, anda a alma tão solícita, que em todas as coisas busca, o Amado; em tudo que pensa, logo pensa no Amado; seja no falar, seja no tratar dos negócios que se lhe apresentam, logo fala e trata do Amado; quando come, quando dorme, quando vela, ou quando faz qualquer coisa, todo o seu cuidado está no seu Amado, conforme ficou dito acima, a propósito das ânsias de amor. Nesta altura, já o amor vai convalescendo e cobrando forças, que lhe são dadas no segundo degrau; bem cedo começa a subir para o terceiro, por meio de alguma nova purificação na noite, conforme diremos depois, e que opera na alma os efeitos seguintes.

4. O terceiro degrau desta amorosa escada faz a alma agir e lhe dá calor para não desfalecer. Dele diz o real Profeta: “Bem-aventurado o varão que teme ao Senhor, porque em seus mandamentos se comprazerá muito” (Sl 111, 1). Ora, se o temor, por ser filho do amor, produz este efeito de desejo ardente, que fará então o mesmo amor? Aqui neste degrau, a alma tem na conta de pequenas as maiores obras que possa fazer pelo Amado; as muito numerosas, considera-as escassas; e o longo tempo em que O serve, achava breve. Tudo isto, por causa do incêndio de amor em que vai ardendo. Ao Patriarca Jacob, a quem fizeram servir sete anos mais, além dos sete primeiros, pareciam-lhe todos muito poucos, pela grandeza do amor que sentia (Gn 29, 20). Se, pois, o amor de Jacob, sendo por uma criatura, era tão poderoso, que não poderá o do Criador, quando, neste terceiro degrau, se apodera da alma? Com esse grande amor a Deus em que se sente abrasada, tem aqui a alma grandes pesares e penas, por causa do pouco que faz por file; se lhe fosse lícito aniquilar-se mil vezes por Deus, ficaria consolada. Por isto, se tem na conta de inútil, em todas as suas obras, e lhe parece viver em vão. Produz também o amor, neste tempo, outro efeito admirável: a alma está verdadeiramente convencida, no seu íntimo, de ser a pior de todas as criaturas, primeiramente porque o amor lhe ensina quanto Deus merece; de outra parte, porque julga suas próprias obras, embora sejam muitas, como cheias de faltas e imperfeições, e daí lhe vem grande confusão e dor, por ver como o que faz é tão baixo, para tão alto Senhor. Neste terceiro degrau, a alma está muito longe de ter vanglória ou presunção, ou ainda de condenar a outrem. Tal solicitude, juntamente com outros muitos efeitos do mesmo gênero, produz na alma este terceiro degrau de amor; daí, o tomar coragem e forças para subir até o quarto, que é o seguinte.

5. O quarto degrau da escada de amor causa na alma uma disposição para sofrer, sem se fatigar, pelo seu Amado. Porque, como diz Sto. Agostinho, todas as coisas grandes, graves e pesadas, tornam-se nada, havendo amor. Deste degrau falou a Esposa quando disse ao Esposo, desejando ver-se já no último degrau: “Põe-me como um selo sobre teu coração, como um selo sobre teu braço; porque o amor é forte como a morte, e o zelo do amor é tenaz como o inferno” (Cânt 8, 6). O espírito tem aqui tanta força, e mantém a carne sob tal domínio, que não faz mais caso dela do que a árvore de uma de suas folhas. De modo algum busca a alma, neste degrau, sua consolação ou gosto, seja em Deus ou em qualquer outra coisa; não anda também a desejar ou pretender pedir mercês a Deus, pois vê claramente já haver recebido grandíssimas. Todo seu cuidado consiste em verificar como poderá dar algum gosto a Deus, e servi-Lo pelo que Ele merece e em agradecimento das misericórdias recebidas d’Ele ainda que isso custasse muito. Exclama em seu coração e em seu espírito: “Ah! Deus e Senhor meu! quantas almas estão sempre a buscar em Ti seu consolo e gosto, e a pedir que lhes concedas mercês e dons! Aquelas, porém, que pretendem agradar-te e oferecer-te algo à própria custa, deixando de lado seu interesse, são pouquíssimas. Não está a falta, Deus meu, em não quereres Tu fazer-nos sempre mercês, mas, sim, em não nos aplicarmos, de nossa parte, a empregar só em teu serviço as graças recebidas, a fim de obrigar-te a favorecer-nos continuamente”. Muito elevado é este degrau de amor. E como a alma, abrasada em amor tão sincero, anda sempre em busca de seu Deus, com desejo de padecer por Ele, Sua Majestade lhe concede muitas vezes, e com muita frequência, o gozar, visitando-a no espírito, saborosa e deliciosamente; porque o imenso amor do Verbo Cristo não pode sofrer penas de sua amada sem acudir-lhe. É o que nos diz Ele por Jeremias, com estas palavras: “Lembrei-me de ti, compadecendo-me de tua mocidade, e do Amor de teus desposórios, quando me seguiste no deserto” (Jer 2, 2). O qual, espiritualmente falando, significa o desarrimo de toda criatura, em que a alma permanece agora, sem se deter nem descansar em coisa alguma. Este quarto degrau inflama de tal modo a alma, e a incendeia em tão grande desejo de Deus, que a faz subir ao quinto, o qual é como segue.

6. O quinto degrau da escada de amor faz a alma apetecer e cobiçar a Deus impacientemente. Neste degrau, é tanta a veemência da alma amante em seu desejo de compreender a Deus, e unir-se com Ele, que toda dilação, seja embora mínima, se lhe torna muito longa, molesta e pesada. Está sempre pensando em achar o Amado; e quando vê frustrado seu desejo, — o que acontece quase a cada passo, — desfalece em sua ânsia, conforme diz o Salmista falando deste degrau: “Suspira e desfalece minha alma, desejando os átrios do Senhor” (5183, 2). Neste degrau, a alma que ama, ou vê o Amado, ou morre. Raquel, estando nele, pelo nímio desejo que tinha de ter filhos, disse a seu esposo Jacob: “Dá-me filhos, senão morrerei” (Gn 30, 1). Padecem as almas aqui fome, como cães cercando e rodeando a cidade de Deus (S1 58, 7). Neste faminto degrau se nutre a alma de amor: porque, conforme a fome, é a fartura. E assim pode agora subir ao sexto degrau, que produz os seguintes efeitos.


[1] Citação aproximada: “Buscai ao Senhor e fortificai-vos; bus­cai sempre a sua face” (SI 104, 4).


Fonte:

Traduzido pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro.