Capítulo XVIII - Filtros e Magnetismo
Um capítulo de Dogma e Ritual de Alta Magia
Eliphas Levi
Capítulo XVIII - Filtros e Magnetismo
Viajemos, agora, na Tessália, no país dos encantamentos. É aqui era Apuleio foi enganado como os companheiros de Ulisses e sofreu uma vergonhosa metamorfose. Aqui tudo é mágico, os pássaros que voam, os insetos que zunem na erva, e até as árvores e flores; aqui se compõem ao clarão da lua os venenos que fazem amar; aqui as estriges inventam encantos que as fazem jovens e belas como as Charites. Jovens tomai cuidado convosco.
A arte dos envenenamentos da razão ou dos filtros parece, com efeito, conforme as tradições, ter desenvolvido com mais luxo na Tessália, que em qualquer outra parte a sua eflorescência venenosa; mas, ainda nisso, o magnetismo representou o papel mais importante, porque as plantas excitantes ou narcóticas, as substâncias animais maleficiadas e doentias, travam toda a sua força nos encantamentos, isto é, dos sacrifícios realizados pelas feiticeiras e das palavras que pronunciavam, preparando os seus filtros e suas beberagens.
As substâncias excitantes e as que contêm mais fósforos são naturalmente afrodisíacas. Tudo o que age vivamente sobre o sistema nervoso pode determinar a sobreexcitação passional e se uma vontade hábil e perseverante sabe dirigir e influir sobre estas disposições naturais, ela se servirá das paixões dos outros em proveito das suas, e reduzirá logo as personalidades mais altivas a tornarem-se, num tempo dado, instrumentos dos seus prazeres.
É de uma tal influência que é importante se preservar e é para dar armas ao fracos que escrevemos este capítulo.
Eis, primeiramente, quais são as práticas do inimigo:
Aquele que se quer fazer amar (atribuímos somente a um homem todas estas manobras ilegítimas, não supondo que uma mulher tenha necessidade delas), aquele, pois, que se quer fazer amar, deve, primeiramente, fazer-se notar e produzir uma impressão qualquer na imaginação da pessoa que deseja. Que a encha de admiração, espanto ou terror, de horror até, se só tiver este expediente; mas é preciso a todo o preço que, para ela, ele saia da posição dos homens comuns e que tome, de boa ou má vontade, um lugar na sua memória, nas suas apreensões e nos seus sonhos. O Lovelace não é, certamente, o ideal escolhido das Clarisses; elas, porém, pensam nele sem cessar, para o reprovar, amaldiçoar, lamentar suas vítimas, desejar sua conversão e seu arrependimento; depois quereriam regenerá-lo pelo devotamento e o perdão; depois a vaidade secreta lhes diz que seria bonito fixar o amor de um Lovelace, ama-lo e resistir-lhe. E eis minha Clarisse que se surpreende a amar o Lovelace; ela não o quer amar, ela cora por isso, ela o renuncia mil vezes e o ama mil vezes mais; depois, quando vem o momento supremo, ela se esquece de lhe resistir.
Se os anjos fossem também mulheres, como os representa o misticismo moderno, Jeová teria agido como pai bem prudente e bem sábio, quando pôs Satã à porta do céu.
Uma grande decepção para o amor-próprio de certas mulheres honestas é achar bom e irreprovável, no íntimo, o homem pelo qual se tinham apaixonado, tomando-o por um bandido. O anjo deixa, então, o bonachão com desprezo, dizendo-lhe: “Tu não és o diabo!” Disfarçai-vos, pois, em diabo o mais perfeitamente possível, vós que quereis seduzir um anjo.
Nada é permitido a um homem virtuoso. “Por quem, com efeito, aquele homem nos toma? – dizem as mulheres – acaso acredita que a gente tem menos moralidade que ele?” Mas tudo é perdoado a um mandrião: “Que quereis esperar de melhor de uma tal pessoa?”
O papel do homem de grandes princípios e caráter rígido só pode ser um poder junto a mulheres que nunca há necessidade de seduzir; todas as outras, sem exceção, adoram os maus homens.
É tudo o contrário nos homens, e é este contraste que fez do pudor o apanágio das mulheres: é nela o primeiro o mais natural dos galanteios.
Um dos médicos mais distintos e um dos mais amáveis sábios de Londres, o doutor Ashburner, contou-me que um dos seus clientes, saindo da casa de uma grande dama, lhe dissera um dia:
- Acabo de receber um estranho cumprimento. A marquesa de *** me disse, olhando-me face a face: “Senhor, não me fareis abaixar os olhos com vosso terrível olhar”.
- Pois bem! – respondeu-lhe o doutor, sorrindo. – Sem dúvida, vos lançastes imediatamente ao seu pescoço e a abraçastes?
-Não, porém fiquei muito admirado com o apóstrofe.
- Pois então, meu caro, não ides mais à casa dela; estais perdido no seu espírito.
Dizem ordinariamente, que os ofícios de algoz se transmitem de pai a filho. Os algozes têm, pois, filhos? Sem dúvida, pois que nunca faltam mulheres. Marat tinha uma amante que o amava ternamente, a ele, o horrível leproso; mas também era o terrível Marat, que fazia tremer a todos.
Podia-se dizer que o amor, principalmente na mulher, é uma verdadeira alucinação. Apesar de um outro motivo insensato, ela se determinará quase sempre para o absurdo. Enganar Joconda por causa de um tesouro oculto, que horror! – Ora, pois, se é um horror, por que não o fazer? Deve ser tão agradável fazer, de tempos em tempos, um pequeno horror.
Sendo dado este conhecimento transcendental da mulher, há uma segunda manobra a operar para atrair a sua atenção: é não se ocupar dela ou ocupar-se de um modo que humilhe o seu amor-próprio, tratando-a como uma criança e afastando bem longe a idéia de lhe fazer corte. Então, os papéis mudarão: ela fará tudo para vos tentar, ela vos iniciará nos segredos que as mulheres se reservam, vestir-se-á e despir-se-á de vós, dizendo-vos coisas como estas: “Entre mulheres - entre velhos amigos – não vos temo – não sois homem para mim”, etc., etc. Depois observa os vossos olhares, e se os acha calmos e indiferentes, ela ficará irritada; aproximar-se-á de vós sob um pretexto qualquer, vos roçará com seus cabelos, deixará o seu roupão se abrir... Viram-se até algumas, em tais circunstâncias, arriscar um assalto, não por ternura, mas por curiosidade, por impaciência e porque estavam excitadas.
Um mago que tem espírito não tem necessidade de outros filtros a não ser esses; dispõe também das palavras enganosas, dos sopros magnéticos e contatos ligeiros, mas voluptuosos, com uma espécie de hipocrisia, como se não pensasse nisso. Os que dão beberagens devem ser velhos tolos, feios, impotentes; e, então, para que serve o filtro? Todo homem que é verdadeiramente um homem tem sempre à sua disposição os meios de se fazer amar, contanto que não procure obter um lugar já ocupado. Seria soberanamente mal feito tentar a conquista de uma jovem casada por amor, durante as primeiras doçuras da sua lua de mel, ou de uma Clarisse que já tenha um Lovelace que a torna muito infeliz e cujo amor reprova amargamente.
Não falaremos aqui das imundícies da magia negra a respeito dos filtros; acabamos com elas com as cozinhas de Canidia. Pode-se ver, nos Epodos de Horácio, como esta abominável feiticeira de Roma compunha os venenos, e pode-se, para os sacrifícios e encantamentos de amor, ler as Eglogas e Teócrito e Virgílio, nas quais as cerimônias dessas espécies de obras mágicas são minuciosamente descritas. Não transcreveremos aqui as receitas dos engrimanços, nem as do Pequeno Alberto, que todos podem consultar. Todas estas diferentes práticas participam do magnetismo ou da magia envenenadora, e são ingênuas ou criminosas.
As beberagens, que enfraquecem o espírito e perturbam a razão, podem assegurar o império já conquistado por uma vontade má e é assim que, conforme dizem, a imperatriz Cesônia fixou o amor feroz de Calígula. O ácido prússico é o mais terrível agente destes envenenamentos do pensamento. É por isso que é preciso evitar qualquer distilação que tenha o gosto de amêndoa, afastar do seu quarto de dormir as amendoeiras e os daturas, os sabonetes de amêndoas, os leites de amêndoas e, em geral, todas as composições de perfumaria em que o cheiro das amêndoas dominarem, principalmente se a sua ação sobre o cérebro for ajudada pela do âmbar.
Diminuir a ação da inteligência é aumentar, igualmente, as forças de uma paixão insensata. O amor, tal como o querem inspirar os malfeitores de que falamos aqui, seria um verdadeiro embrutecimento e a mais vergonhosa de todas as escravidões morais.
Quanto mais excitarmos um escravo, mais o tornamos incapaz de se libertar, e é este verdadeiramente o segredo da magia de Apuleio e das beberagens de Circe.
O emprego do fumo, quer como tabaco, quer para fumar, é um auxiliar perigoso dos filtros entorpecedores e dos envenenamentos da razão. A nicotina, como se sabe, não é um veneno menos violento que o ácido prússico e se acha em maior quantidade no fumo do que este ácido nas amêndoas.
A absorção de uma vontade por outra muda, muitas vezes, uma série inteira de destinos, e não é somente para nós mesmos que devemos velar sobre nossas relações e aprender a discernir as atmosferas puras das atmosferas impuras; porque os verdadeiros filtros, os filtros mais perigosos, são invisíveis, são as correntes de luz irradiante que, misturando-se e substituindo-se, produzem as atrações e simpatias, como as experiências magnéticas não permitem duvidar disso.
Fala-se, na história da Igreja, de um heresiarca chamado Marco, que deixava todas as mulheres loucas por si, soprando nelas; mas o seu poder foi destruído por uma corajosa cristã que foi a primeira a soprar nele, dizendo-lhe: “Que Deus te julgue!”
O Cura Gaufredy, que foi queimado como feiticeiro, pretendia deixar apaixonadas por si todas as mulheres que fossem atingidas pelo seu sopro.
O celebérrimo padre Girard, jesuíta, foi acusado pela Senhora Cadière, sua penitente, de lhe ter feito perder completamente o juízo, soprando sobre ela. Era-lhe muito necessária esta desculpa para atenuar o horror e o ridículo das suas acusações contra este padre, cuja culpabilidade, aliás, nunca foi bem provada, porém que, de boa ou má vontade, tinha certamente inspirado uma bem vergonhosa paixão a essa infeliz moça.
“A Senhora Ranfaing, tendo ficado viúva em 16... - diz Dom Calmet, no seu Tratado sobre as
Aparições -foi pedida em casamento por um médico chamado Poirot. Não tendo sido ouvido no seu pedido, ele lhe deu primeiramente filtros para se fazer amar por ela, o que causou estranhos desarranjos na saúde da Senhora Ranfaing. Logo, coisas tão extraordinárias aconteceram a esta senhora, que a julgaram possessa, e os médicos, declarando nada entender do seu estado, a recomendaram aos exorcismos da Igreja”.
“Depois disso, por ordem do Sr. De Porcelets, bispo de Toul, nomearam para seus exorcistas o Sr. Viardin, doutor em teologia, conselheiro de Estado do duque de Lorena, um jesuíta e um capuchinho; mas, no decorrer desses exorcismos, quase todos os religiosos de Nancy, inclusive o bispo, o bispo de Tripoli, sufragante de Strasburgo, o Sr. De Sancy, embaixador do rei cristianíssimo em Constantinopla, e então padre do Oratório, Carlos de Lorena, bispo de Verdun, dois doutores da Sorbonne enviados expressamente para assistirem aos exorcismos, a exorcizaram muitas vezes em hebreu, grego e latim, e ela, que apenas sabia ler o latim, sempre respondeu pertinazmente:
“Refere o certificado dado pelo Sr. Nicolau de Harlay, muito hábil em linguagem hebraica, que reconhece que a Senhora Ranfaing era realmente possessa, e que ele tinha respondido somente com o movimento dos lábios e sem que tivesse pronunciado palavra alguma, e ela havia dado várias provas da sua possessão. O Sr. Garnier, doutor da Sorbonne, tendo-lhe dado também várias ordens em língua hebraica, ela lhe respondeu pertinazmente, dizendo que o pacto era que só falaria língua ordinária. O demônio acrescentou: “Não é bastante que te mostre que entendo o que dizes?” O mesmo Sr. Garnier, falando-lhe em grego, empregou por distração um caso por outro. A possessa, ou antes o diabo, lhe disse: Tu erraste. O doutor disse-lhe em grego: Mostra o meu erro. O diabo respondeu: Contenta-te que denuncie o teu erro: não te falarei mais nada dele. O doutor dizendo-lhe que se calasse, ele lhe respondeu: Ordenas-me que me cale, e eu não me quero calar.
Este notável exemplo de afecção histérica levada até ao êxtase e a demonomania, depois de um filtro administrado por um homem que se julgava feiticeiro, prova, mais do que tudo o que poderíamos dizer da onipotência da vontade e da imaginação reagindo uma sobre a outra e a estranha lucidez dos extáticos e sonâmbulos, que entendem a palavra lendo-a no pensamento, sem ter a ciência das palavras. Não ponho, de modo algum, em dúvida a sinceridade das testemunhas mencionadas por Dom Calmet; admiro-me somente de que homens tão sérios não tivessem notado esta dificuldade que tinha o pretenso demônio em lhes responder numa língua estranha à da doente. Se o meu interlocutor fosse o que entendiam por um demônio, não somente teria entendido o grego, mas também teria falado em grego; um não custaria mais do que o outro para um espírito tão sábio e maligno.
Dom Calmet não diz só isso a respeito da história da Senhora Ranfaing; conta uma série de perguntas insidiosas e de ordens pouco sérias da parte dos exorcistas, e uma série de respostas mais ou menos confusas da pobre doente, sempre extática e sonâmbula. Este bom padre não deixa de tirar disso as conclusões luminosas deste outro bom Sr. de Mirville. As coisas que se passavam estando acima da inteligência dos assistentes, deve-se concluir que tudo isso era obra do inferno. Bela e sábia conclusão! O mais sério do negócio é que o médico Poirot foi julgado como mago e, posto em torturas, confessou a sua falta, sendo queimado. Se realmente, por meio de um filtro qualquer, tinha atentado contra a razão desta mulher, merecia ser punido como envenenador: é tudo o que podemos dizer.
Mas os filtros mais terríveis são as exaltações místicas de uma devoção mal entendida. Que impurezas igualarão os pesadelos de Santo Antonio e os tormentos de Santa Teresa e de Santa
Ângela de Foligny. Esta última aplicava um ferro em brasa à sua carne revoltada, e achava que o fogo material era um refrigério para os seus ardores ocultos. Com que violência a natureza pede o que lhe recusam dar, pensando continuamente em o detestar! É pelo misticismo que começaram os pretensos enfeitiçamentos das Madalenas de Bavan, das senhoritas De la Palud e De la Cadière. O temor excessivo de uma coisa quase sempre a torna inevitável. Seguindo as duas curvas de um círculo chega-se ao mesmo ponto. Nicolau Remigius, juiz criminal em Lorena, que fez queimar vivas oitocentas mulheres como feiticeiras, via a magia em toda parte; era a sua idéia fixa, a sua loucura. Queria pregar uma cruzada contra os feiticeiros, de que via cheia a Europa; desesperado por não ser acreditado sobre palavra, quando afirmava que quase todos eram culpados de magia, acabou por declarar feiticeiro a si próprio e foi queimado pelas suas próprias afirmações.
Para se preservar das más influências, a primeira condição seria, pois, evitar que a imaginação se exalte. Todos os exaltados são mais ou menos loucos, e sempre é fácil dominar um louco, tomando-o pela sua loucura. Ponde-vos, pois, acima dos temores pueris e desejos vagos; crede na sabedoria suprema e ficai convencido de que esta sabedoria, tendo-vos dado a inteligência para único meio de a conhecer, não pode querer armar laços à vossa inteligência ou razão. Vedes em toda parte, ao redor de vós, efeitos proporcionados às causas; vedes as causas dirigidas e modificadas no domínio do homem pela inteligência; vedes, em suma, o bem ser mais forte e mais preferido que o mal: por que suporeis, no infinito, uma imensa irracionalidade, se há razão no finito? A verdade não se oculta a ninguém. Deus é visível nas suas obras, e nada pede aos seres contra as leis da natureza deles, da qual ele próprio é autor. A fé e a confiança; tende confiança não nos homens que vos falam mal da razão, porque são loucos ou impostores, mas sim na eterna razão que é o verbo divino, esta luz verdadeira oferecida, como o sol, à intuição de toda criatura humana que vem a este mundo.
Se acreditardes na razão absoluta e se desejais mais do que tudo a verdade e a justiça, não deveis temer ninguém, e só amareis os que são amáveis. A vossa luz natural repelirá instintivamente a dos malvados, porque ela será dominada pela vossa vontade. Assim, até as substâncias venenosas que poderiam vos ser administradas não afetarão a vossa inteligência. Poderão tornar-vos doente, mas nunca vos farão ficar criminoso.
O que contribui para tornar histéricas as mulheres é a sua educação débil e hipócrita. Se fizessem mais exercícios, se lhes ensinassem as coisas do mundo, franca e liberalmente, elas seriam menos caprichosas, menos vaidosas, menos fúteis e, por conseguinte, menos acessíveis às más seduções. A fraqueza sempre se simpatiza com o vício, porque o vício é uma fraqueza que se dá aparência de uma força. A loucura tem horror à razão e se compraz em todas as coisas com as exagerações da mentira. Curai, pois, primeiramente a vossa inteligência doente. A causa de todos os enfeitiçamentos, o veneno de todos os filtros e a força de todos os feiticeiros estão aí.
Quanto aos narcóticos ou outros venenos que nos poderiam ser administrados, é negócio de medicina e de justiça; mas não pensamos que tais barbaridades se reproduzam muito atualmente. Os Lovelaces não adormecem mais as Clarisses a não ser pelas suas galanterias, e as beberagens, como os raptos por homens mascarados e as prisões em subterrâneos, não teriam mais lugar nem mesmo nos nossos romances modernos. É preciso deixar tudo para o confessionário dos penitentes negros ou nas ruínas do castelo de Udolph.



